10 anos comendo batata: Um memoir
Viver na Alemanha

10 anos comendo batata: Um memoir

Celso Celso Fernandes
30 de agosto de 2017
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No dia 3 de julho de 2007 eu pousei no extinto aeroporto Tempelhof  em Berlim e avistei terras germânicas pela primeira vez. Ainda lembro da surpresa que tive ao ver gente loira fazendo a faxina do saguão e do quão pouco eu entendia o idioma mesmo após estudar 2 anos de alemão no Brasil. No dia da minha chegada eu tinha apenas duas coisas como certo: que em três a seis meses estaria de volta ao Brasil e que até o fim daquela semana eu provavelmente estaria morando num belo, antigo e ensolarado sobrado localizado em alguma alameda arborizada numa cidade chamada Braunschweig.

Hoje, dez anos após a minha chegada, posso dizer que nehuma das minhas (duas) expectativas iniciais acabaram se concretizando. Em vista disso, achei que seria legal fazer um artigo refletindo sobre os eventos da última década. O que mudou na Alemanha nestes últimos 10 anos? Como isso influenciou a minha pessoa? E o que aconteceu com o país que deixei para atrás?

O cenário em 2007

Nos fins de junho de 2007, eu estava no Rio de Janeiro terminando de organizar a bagagem para a grande viagem da minha vida. Eu tinha acabado de trancar o curso de engenharia de automação na PUC e desistido do meu estágio em uma empresa de automação. O clima era de euforia e puro otimismo: pedi a mão da minha namorada em casamento e juntos vendemos tudo que tínhamos para embarcar numa aventura de 3 a 6 meses na Alemanha. O plano era simples: ir para a Alemanha, achar um apê pequeno, estudar alemão intensivamente no VHS durante 3 meses, se possível arrumar um trampo em algum restaurante e no fim de tudo fazer uma viagem pela Europa. Até o fim de 2007 estaríamos de volta ao Brasil para passar o natal com nossas famílias. Simples, certo? O que poderia dar errado?

No Brasil, o clima refletia nossos ânimos. O Lula estava no auge da sua presidência, a indústria do petróleo estava bombando e o mundo todo concordava que o Brasil finalmente estava decolando. O que mais poderia dar errado? Lembro muito bem que quando anunciei para alguns familiares e colegas que deixaria o meu estágio na tal firma de automação (hoje falida), muitos não viam o propósito da minha decisão e alguns chegaram a dizer que eu era irresponsável.

 “Como assim deixar o estágio e a PUC para ir fazer férias na Europa?? Você deveria ficar por aqui, terminar o seu curso e fazer um concurso para Petrobras”.

Enquanto isso na Alemanha, o clima não era tão otimista assim. O país estava aos poucos mostrando sinais de melhora depois dos anos de crise da instalação do Euro. Ainda assim, cerca de 8% dos alemães estavam desempregados e estudantes encontravam grandes dificuldades para arrumar um bom emprego. O ano de 2007 começou com uma tragédia causada pelo furacão Kyrin e o tema do aquecimento global fez-se presente não apenas na política, mas também nos termômetros daquele ano. A Alemanha era também muito mais modesta nos gramados e ainda temia times de outros países como o Brasil, Itália e a França. Em geral, o país progedia e o termo „multikulti”, resumia a intensão do país de se tornar uma nação multi-cultural e acolhedora de estrangeiros. Este sentimento tornou-se ainda mais forte um ano antes, durante os meses da copa de 2006 quando alemães e fãns do mundo inteiro vibraram juntos sob os auspícios da bandeira tri color. Era a primeira vez em muitas décadas, que os alemães sentiam-se livres e a vontade para expor o seu nacionalismo.

Reflexões sobre a chegada e a fase de adaptação

A minha vida de turista na Alemanha durou literalmente cinco dias e foram os cinco dias em que passamos pegando o trem de Schöningen (aonde nosso albergue estava localizado) e Braunschweig (aonde estávamos buscando apartamento). Todos os dias fazíamos a viagem e passávamos o dia em Braunschweig numa busca incesante por um apartamento. No final, acabamos nunca achando o tal sobrado ensolarado e sim um edifício velho, de concreto com centenas de quitinetes habitadas por imigrantes do Leste Europeu , algumas prostitutas, gente desempregada e por aí vai. No fim do segundo mês, haviamos decidido que íriamos extender a estadia para 6 meses ou até mais. Neste momento já estava claro que a Alemanha não era exatamente a América e que o sonho alemão seria um pouco mais difícil de realizar. Todas as minha expectativas de arrumar um trampo num café e passar umas semanas viajando de trem pela Europa haviam sido friamente esmagadas pela nossa falta de grana e custos de curso de alemão. O fim da luta para achar um apartamento terminou apenas para dar lugar a uma nova luta: a luta pela adaptação.

Apartamento em Braunschweig
Apartamento em Braunschweig
Apartamento em Braunschweig

Nos meus dez anos de Alemanha, eu já vi muitos brasileiros chegando aqui e se dizendo completamente adaptados após meros 6 meses. Apesar deste tempo variar muito de pessoa para pessoa, eu geralmente disputo esta afirmação. A verdade é que adaptado mesmo está quem domina o idioma e a cultura local. Se você precisa de ajuda para resolver seus problemas diários, par ler documentos ou para redigir emails, então não está adaptado. Se você vive e sente-se a vontade apenas cercado de brasileiros, então a verdade é que não está adaptado. E, finalmente, se você ainda não entendeu como os alemães te veêm e como você precisa agir para quebrar os paradigmas desta visão, você também não está adaptado. Na minha experiência, o tempo real de adaptação é de no mínimo dois anos e para alguns pode chegar até muito mais que isso.

O idioma

O idioma é a pedra fundamental para a adaptação aqui na Alemanha. Durante quase dois anos eu fiz aula particular com um austríaco no Rio e isso ajudou imensamente o meu aprendizado. De julho de 2007 até dezembro do mesmo ano, respirei e vivi alemão. Passava todas as manhãs da semana no curso e durante a tarde fazia a tarefa de casa. O meu círculo de amizade se resumia aos 14 alunos da minha classe e nas poucas ocasiões em que saíamos juntos, pareciamos um comercial da United Colors of Benetton. Tinha gente de todo tipo e de todo canto e os papos giravam em torno das provas, certificados, A1, B2, DSH, Zertifikat Deutsch, vistos e tudo mais.

Para mim, aprender alemão não foi apenas um mecanismo de adaptação e sim um mecanismo de sobrevivência. Uma vez que decidimos extender a nossa estadia e nossas reservas financeiras se esgotaram, estava claro que o único caminho seria trabalhar. Para trampar era necessário permissões e para obter permissões era necessário um trabalho. Como eu ainda não tinha nem um e nem outro, mirei pelo visto de estudante que vinha com uma permissão de trabalho. A dificuldade foi que para conseguir o visto de estudante, era necessário matricula na universidade e para conseguir a matrícula na universidade, era necessário passar na prova de alemão. Com 3 meses restando no visto de idioma e 2 meses de grana ainda na carteira, o sucesso do nosso “sonho alemão” estava atrelado ao resultado da minha prova do DSH.

A arte de viver um visto de cada vez

Paralelo a angústia de não dominar o idioma e não entender 100% o que as pessoas estão te dizendo, existia a angústia de não saber se haveria um amanhã. Aqueles que vieram para a Alemanha casados com alemães ou enviados por uma empresa ou coisa do tipo, nunca saberão o que é isso. O fato é que não importa qual é o seu plano na Alemanha, você tem apenas até a data final do seu visto para fazê-lo. Lógico, que vistos podem ser extentidos, mas a grande incógnita é se você terá a grana suficiente, ou a matricula no curso ou o contrato de aluguel para fazê-lo. As vezes, você pode ter tudo isso e ainda assim dar azar de ter que lidar com um funcionário de "olho de vidro e cara de mau".

Ceia em 2007
Ceia de Reveillon em dezembro 2007

Em fevereiro de 2008, eu havia passado na prova do DSH e possuía toda a documentação necessária para trocar meu visto de idioma por um visto de estudante. Eu parecia ter tudo ao meu favor, menos a boa vontade da funcionária do Ausländerbehörde que insistia em sempre arrumar um impecilho para não trocar o meu visto. Com 3 semanas faltando para o ínicio das aulas na universidade, eu precisava de um milagre. No final, este milagre veio de uniforme. O marido de uma brasileira amiga nossa era policial e quando ele ficou sabendo da minha situação, ele resolveu ajudar. Numa sexta-feira gelada ele foi uniformizado me encontrar na porta do escritório de estrangeiros e juntos nós nos dirigimos ao escritório da senhora responsável pela minha situação. O visto saiu em apenas 20 minutos.

Em posse do visto de estudante, eu passei a segunda marcha da minha vida na Alemanha, porém os problemas com visto estavam longe de um fim. Todos os anos o visto precisava ser extendido e para isso era necessário comprovar grandes depósitos de grana. Por mais que eu trabalhasse (e durante anos trabalhei 3 trabalhos paralelo ao estudo), a grana dava apenas para pagar as minhas despesas e as despesas da minha noiva na época. Nunca chegamos a ter economias o suficiente para comprovar os 7.000 EUR que eram necessários para prolongar o visto, mas na época ainda existia a opção de ter um reponsável financeiro no Brasil. Anos depois, esta opção foi extinta porém eu já estava na minha reta final da vida de estudante.

Sobrevivendo sem um “um puto“ no bolso

Os quatro primeiros anos que passei na Alemanha podem ser resumidos com uma única palavra: perrengue. Era perrengue de idioma, perrengue na universidade, perrrengue de visto a cada 12 meses e perrengue constante de grana. Durante esta fase, eu trabalhei como assistente na universidade, como web developer numa empresa de PCs, em fábricas e até numa churrascaria. Todos estes trabalhos rendiam não mais que 650 a 800 EUR mensais e o meu custo mensal chegava a 600 EUR. Após todas as despesas pagas eu ficava literalmente sem "um puto no bolso". Era quase impossível ter um momento de lazer a não ser passar uma tarde no parque ou viajar para alguma cidade dentro do limite da minha passagem de estudante.

Amigos do Silentpro
Com colegas de trabalho. Agosto 2009

A minha situação melhorou consideravelmente nos últimos semestres da faculdade. Foi nessa época que eu arrumei meu primeiro trabalho como Working Student (Werkstudent) dentro de uma empresa de engenharia e comecei a ganhar o dobro que ganhava para trabalhar a metade do tempo.  A sorte sorriu pra mim mesmo apenas após o fim do curso universitário. Com um salário inicial acima de 50.000 EUR por ano, os meus problemas financeiros acabaram. Além do mais, devido ao meu novo nível acadêmico e faixa salarial, eu recebi um Blue Card e resolvi também os problemas com visto.

A minha visão do Brasil

Hoje, depois de dez anos em terras germânicas muita coisa mudou; não apenas para mim, mas também no país que deixei para atrás e no país que vivo agora. O Brasil do futuro de 2007, hoje mal consegue andar com as próprias pernas; aqueles que naquela época criticaram a minha decisão de deixar tudo para atrás, hoje afirmam que sempre sonharam em fazer o que eu fiz.  Uma das maiores tristezas quando volto para o Brasil, hoje em dia, é perceber que nada mudou e em alguns casos, acredito que as coisas até pioraram. A sociedade otimista e consumista de outrora, agora está dividida entre socialistas e direitistas que atacam uns aos outros  via comentários de Facebook. Os preços que já eram abusivos há 10 anos, agora parecem uma piada de mau-gosto. Tudo custa muito, tem pouca qualidade e você ainda é criticado por tentar criticar. No Rio de Janeiro, os custos são tão altos que toda vez me pergunto como as pessoas conseguem sobreviver e tento imaginar a quantia do salário delas. 

A Alemanha hoje

A passagem do tempo também trouxe mudanças aqui na Alemanha. Estas se fazem visíveis principalmente no aumento do custo de vida e  na dificuldade de achar um local barato para morar. Há 10 anos, era possível comprar um pacote de 500g de macarrão por aproximadamente 39 centavos de Euro. Hoje, o mesmo pacote de macarrão custa 69 centavos. Nos últimos anos, o número de pessoas ganhando salários menores e trabalhando múltiplos mini-jobs aumentou, mas o número de apartamentos "pagáveis" não acompanhou o ritmo. Além do mais, aumentou também o número de jovens ingressando nas universidades e pessoas emigrando para as cidades ou regiões com melhores chances de emprego.  Tudo isso fez com que a demanda por apartamentos de classe B aumentasse drasticamente. Segundo matéria do jornal N24 faltam aproximadamente 1 milhão de apartamentos no Alemanha.  Os preços imobiliários tomaram tamanha proporção que até famílias consideradas de classe média não conseguem mais pagar um apartamento novo nas grandes cidades. O tema é tão sério, que é considerado um dos pilares dos discursos políticos das eleições deste ano. Se por um lado o preço do metro quadrado e dos aluguéis subiram, por outro lado as taxas de juros para financiamentos imobiliários caíram drasticamente na última década. Em 2007 os juros anuais beiravam os 6%, mas hoje estão encostando em 1%.

Assim como no Brasil, a mentalidade do povo alemão também está mudando e os ânimos se tornaram um pouco mais acirrados. Eu acredito que em 2007, o país era muito mais tolerante para com os estrangeiros. Hoje, a Alemanha está se tornando um local difícil principalmente para quem vem do lado sul do equador. A verdade é que ser um estrangeiro na Alemanha sempre foi um “tema”, mas agora se tornou um “TEMA” afomentado pelo imenso número de refugiados que vieram aqui comer batata também.  Os alemães, preocupados em dividir suas batatas, estão se tornando ainda mais desconfiados a medida que veêm seu modo de vida ameaçado por gente de pele escura e cara de mau. Esta mudança de tom se faz visível nos novos partidos políticos de direita que surgiram nos últimos anos. 

 O meu próprio delta


Este memoir não estaria completo sem a análise da minha própria mudança nos últimos 10 anos. É lógico que todos nós mudamos com o tempo e isso independe de uma mudança de país. O verdadeiro desafio em escrever este parágrafo está em reconhecer o que foi fruto das batatas e o que foi amadurecimento natural. Já que comparei a situação econômica e mental do Brasil e da Alemanha nos últimos 10 anos, talvez seja interessante fazer o mesmo com a minha pessoa.

Eu cheguei na Alemanha com 27 anos, desempregado e curso superior incompleto. Eu já dominava o inglês e espanhol fluentemente, pois havia morado um total de 6 anos no exterior durante a minha infância. Fora isso, eu não possuía qualquer outra vantagem. A vida na Alemanha me possibilitou, acima de tudo, um acesso maior a educação de alto nível e a meios de aplicar o meu conhecimento. Hoje reconheço que fazer uma faculdade de engenharia na Alemanha foi provavelmente a coisa mais difícil que já fiz na vida e sofri muito para terminar. A dificuldade não estava apenas no curso em si, mas sim na situação. Nos seis e poucos anos que passei estudando, eu não estava apenas aprendendo a ser um engenheiro, eu estava também aprendendo a ser um alemão, assimilando uma nova cultura, aprendendo a sobreviver com muito pouco e ainda aprendendo os truques dos trabalhos que fazia para financiar os meus estudos. Tudo isso somado e multiplicado pela saudade de casa, a incerteza,  a falta de família e a total falta de interesse dos meus colegas de universidade em me integrar, é a receita do xarope que bebi aqui diariamente durante anos.

Apesar (e talvez por causa) das dificuldades, eu costumo dizer que a Alemanha foi o trampolin para a vida que levo hoje. Foi vivendo aqui, que tive oportunidades que seriam muito improváveis no Brasil. A Alemanha me mandou para a China, aonde obtive um segundo título de mestrado, ajudei a criar uma empresa, conheci a minha esposa, aprendi um quinto idioma e aumentei ainda mais a minha visão de mundo. Tudo isso certamente não teria sido possível se não tivesse comido batatas nos últimos 10 anos. O meu balanço hoje é o seguinte: tenho 36 anos, formado em engenharia mecânica na Alemanha e possuo dois mestrados em engenharia de automobilismo (um obtido na Alemanha e outro na China). Há anos falo alemão fluentemente e ainda aprendi o mandarim básico nos 3 anos que passei vivendo em Xangai, portanto o meu número de idiomas falados aumentou de 3 para 5. Estou empregado em uma das maiores empresas de engenharia da Alemanha e obtive extensa experiência em projetos de software de bordo para a próxima geração de carros inteligentes. Mantive também a minha sociedade na Startup que ajudei a fundar (repare que eu disse "a fundar" não "afundar") em Xangai.  Neste contexto, a minha situação financeira aumentou acima de 1100% se comparada com os ganhos que obtinha em 2008.

Ceia em 2007
Com a equipe em Xangai. Dezembro 2015

Depois de tanto tempo vivendo com pouco, eu reconheço que me tornei uma pessoa mais observadora, mais organizada e que consegue extrair o prazer das pequenas coisas. No Brasil, eu era muito preocupado em mostrar o que tinha, fingir o que não tinha e acima de tudo me deixava impressionar por quem tinha mais. Isso mudou demais na minha vida e quando vou ao Brasil percebo o quanto o dinheiro influencia as pessoas.

E o sobrado ensolarado em Braunschweig?

Bom...o sobrado ensolarado acabou nunca acontecendo. Em 2014 eu me mudei para a China aonde permaneci até novembro de 2016. Poucas semanas depois do meu retorno para a Batatolandia, descobri que seria papai de um lindo bebê mestiço e resolvi fixar residência em Regensburg aonde atualmente vivo e trabalho. Há um mês, resolvi me aventurar no mercado imobiliário e comprei um apartamento que está atualmente em construção. Foi uma decisão difícil, pois não tenho a mínima intenção de comer batatas por muito mais tempo. No final, minha esposa e eu decidimos que era a decisão certa para consolidar a estratégia que montamos para o futuro do nosso filho. Mesmo que nós não venhamos a ficar no país, ele sempre terá total acesso a todo o esquema de saúde e educação de primeira classe e gratuito. Provavelmente ele iniciará a faculdade com um belo apartamento próprio, falando no mínimo 3 idiomas e algum dinheiro no banco. Isso é muito mais do que eu tive quando cheguei aqui em 2007.

Sobre a questão da sorte

Não importa o quanto você luta, o quão bom e confiante você julga ser. A verdade é que na vida as coisas as vezes não acontecem sem uma pitada de sorte. Estar no lugar certo e na hora certa nunca foi um dos meus fortes, porém eu sempre tive a sorte de atrair as pessoas certas. A sorte pode tomar muitas formas, mas para mim, ela sempre tomou a forma humana. A minha caminhada, mesmo que difícil, não teria sido sequer possível sem a ajuda e a presença de algumas pessoas chaves durante a minha caminhada na Alemanha. Cada uma dessas pessoas são, quase que totalmente, responsáveis pela minha felicidade hoje.

A primeira sorte que tive na Alemanha foi um turco que trabalhava num Kiosk no parque que frequentava. Por pura coincidência ele começou a trocar uma idéia comigo e com a minha namorada na época. O meu alemão ainda era muito cru, mas eu entendi bem a parte que ele disse:

In Deutschland muss man immer fragen...fragen..fragen..

Turco do Kiosk

Basicamente ele disse que na Alemanha é preciso sempre perguntar. Guiados por este primeiro conselho, batemos em várias portas na universidade para perguntar como fazer uma matrícula. Lembro de um corredor longo com portas fechadas em ambos os lados. Nós tocamos em muitas portas até que uma se abriu e foi assim que um anjo-da-guarda entrou na minha vida.

A pessoa que abriu a porta chamava-se Adriana e era uma brasileira que há muitos anos vivia na Alemanha. Ela estava fazendo o doutorado, dominava o idioma e conhecia o funcionamento da universidade. Foi através dela que consegui organizar a minha matrícula e foi o alto astral dela que praticamente me motivou a continuar. Ela sempre me dizia que o ínicio era difícil, mas depois a coisa ficava melhor, então  eu me agarrei a estas palavras, fechei os olhos e pulei de cabeça. Realmente ela tinha razão, afinal.

Para cada „Adriana” em nossas vidas existem meia dúzia de pessoas prontas para nos desanimar. A arte está em não se deixar apavorar. Em uma ocasião em 2007, eu estava tão perdido que resolvi ir buscar conselho no Caritas. Lá conheci um assistente social colombiano que me aconselhou a formar um plano bem generalizado e decidir caminhando.  Portanto, o segredo do sucesso da vida na Alemanha está em planejar o máximo quanto necessário e o mínimo quanto possível. 

O segredo do sucesso da vida na Alemanha está em planejar o máximo quanto necessário e o mínimo quanto possível. 

Sobre o futuro

Hoje, mais de uma década após a minha chegada na Alemanha e as vésperas do nascimento do meu primeiro filho, posso dizer que estou vivendo a fase mais feliz da minha vida. Passo os meus dias indo e voltando do trabalho e quando chego em casa tenho a tranquilidade de saber que tudo está em ordem. Não possuo dívidas, não sinto arrependimento e não tenho inimigos. Para mim, o fim dos perrengues marcou também o fim de uma era. Nos fins de semana, minha esposa e eu dividimos as tarefas de casa e falamos sobre qual parte do mundo devemos conhecer nas próximas férias. Os últimos dez anos valeram demais a pena e aqui sentado no sofá da minha sala e olhando para o ventre da minha esposa, eu mal posso esperar para escrever sobre os próximos dez...

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Celso Fernandes
Autor
Engenheiro, empreendedor e programador de fim de semana.  Natural de Petrópolis, RJ. Trinta e poucos anos de idade e há dez anos vivendo na Alemanha. Escreveu o primeiro post no Batatolandia em 2008 e desde então não parou mais. Adora responder perguntas 

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