[ Entrevista ] Ricardo Eche:  Cinema e Teatro Brasileiro em Munique
Coluna Muito Mais Que Cerveja

[ Entrevista ] Ricardo Eche: Cinema e Teatro Brasileiro em Munique

Natália Natália Lima
13 de agosto de 2017
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Você provavelmente o conhece, seja pelo seu curta metragem, no qual atua como ator, roteirista e diretor, pelos Festivais de Cinema Brasileiro que organiza, pelas participações em novelas e séries alemãs ou por sua voz, que narra a visita guiada do Museu Interativo do FC Bayern, no Allianz Arena. Se ainda assim Ricardo Eche não lhe parece familiar, conheça agora mais sobre esse artista que luta para divulgar a cultura brasileira na Alemanha.

Batatolandia: Você é realmente multimídia – faz filme, mas também novela, escreve, é locutor, dublador, narrador do Museu Interativo do FC Bayern e ainda produz conteúdo para criança na internet. Não é muita coisa?

Ricardo Eche: Eu gosto tanto de todas as áreas que fico saltando aqui e ali, depende do projeto que aparece. Logo quando cheguei na Alemanha, eu trabalhava com um pessoal local, mais voltado para o teatro e a televisão e foi o que me levou à novela. Aliás, foi a partir da novela que o público brasileiro daqui passou a me conhecer. O meu trabalho principal são as locuções, foi um caminho mais tranquilo que encontrei. Não existia concorrência e a coisa era mais voltada para a voz. Em estúdio ela funciona muito bem e por isso tenho sido muito solicitado para produções assim.

Batatolandia: Você atuou em uma das maiores e mais famosas novelas alemãs, produzida pela Bavaria Film, Marienhof. Seu personagem era brasileiro e fazia parte de um conflito importante, o tema delicado sobre transplante e leucemia. Como você chegou até eles (ou eles chegaram até você)?

Ricardo Eche: Realmente o tema era super importante e eu acabei fazendo um personagem baiano…

Batatolandia: (Risos) eu sou baiana…

Ricardo Eche: Tudo bem! A imagem dele na tela não era tão baiana assim, pois eles eram baianos mas, viviam no Rio de Janeiro... Não falavam baianês… (Risos) A oportunidade veio através do núcleo da Crisaide Mendes (atriz), que já tinha seu papel fixo na novela. Na história, ela era uma brasileira que fora adotada pela família Poppel. A Marienhof era uma obra especial porque não possuía um único protagonista. O foco sempre mudava de núcleo, todos tinham tramas interessantes e a cada vez, sua chance de estar em evidência na história e participar. Eu fui chamado para um casting, fiz os testes com mais ou menos dez outros candidatos e passei. Infelizmente era apenas uma participação especial e com o desfecho da trama tive de deixar a novela, mas foi um momento bem interessante tanto para mim quanto para a própria história.

Batatolandia: E para quem não assistiu, fale-nos um pouco sobre a Marienhof.

Ricardo Eche: Marienhof foi a primeira novela alemã de grande sucesso, tendo sido exportada para vários outros países. Começou sendo exibida duas vezes por semana. Era o início da produção de novelas na Alemanha, ninguém sabia fazer isso muito bem ainda. Depois passou a ser de segunda a sexta, na faixa de horário de novela das seis. Quando entrei para participar, calhou de ser bem período de celebração dos 500 capítulos – foi uma festa linda e fiquei muito satisfeito com o trabalho. A novela me abriu portas.

Lembrancas do futuro
Cena de Lembranças do Futuro
Batatolandia: Como é a aceitação de atores estrangeiros no Mercado de cinema e TV alemão? Saber falar alemão é imprescindível? Você pode dar alguma dica aos atores e diretores que nos lêem?

Ricardo Eche: O mercado para nós é realmente menor, existem poucas possibilidades. Até mesmo por isso eu acabei fazendo relativamente pouca coisa aqui, é difícil conseguir grandes papéis. O alemão é imprescindível, mas às vezes tem produções que precisam que seja falado português. Para quem está querendo começar, eu diria que é muito importante saber falar alemão e torcer para que seu perfil enquanto ator seja o que eles estejam procurando. Questões como idade e tipo são os principais obstáculos, por isso busquei outros caminhos na arte, outras áreas.

Batatolandia: Durante um bom período você esteve presente em várias produções alemães das mais diversas e depois, parece ter direcionado sua carreira a fomentar e divulgar a cultura brasileira aqui. Foi proposital?

Ricardo Eche: Depois dos trabalhos que fiz na TV alemã (entre os principais Tatort, Der Bulle von Tölz, Der Fahnder), o primeiro convite para fazer algo brasileiro veio através da Associação Cultural Teuto-Brasileira (DBKV), uma montagem teatral chamada “As Batatas Mágicas” e a partir daí, senti que a lacuna que tinha dentro de mim em fazer algo realmente do Brasil começava a ser preenchida. Eu fiz pouca coisa lá pois vim para Alemanha muito jovem. Naquela época era preciso estar presente para conseguir uma oportunidade, não é como hoje em que é possível mandar seu material através de um link e tudo bem. Então fazer teatro e cinema aqui foi uma forma que encontrei de conectar-me com a cultura brasileira. E a estreia foi um sucesso! Lotamos! E então eu mesmo comecei a escrever pecas e assim sugiram, por exemplo “Amigos para Sempre”, “A Princesinha e a Lua”, “Entre o Amor e a Espada” – uma peca infantil bem bacana, que acabamos montando-a também em alemão – e atualmente “Agreste” de Newton Moreno e “Adorável Desgraçada” de Leilah Assumpção, com a atriz Sheila Rizzato, que está na fase de ensaios e tem previsão para estrear em Novembro. Esta montagem faz parte de celebração dos 20 anos do Teatro Brasileiro em Munique.

Batatolandia: A edição deste ano do Festival é comemorativa. A programação já está definida?

Ricardo Eche: É comemorativa no ponto de ser a 5a. edição. Teremos grandes filmes e em breve divulgaremos a programação e a novidade é que o Festival volta a ser realizado em quatro dias, devido à quantidade de filmes que conseguimos. O Festival já trouxe muitos filmes bons como Estômago, O ano em que meus pais saíram de férias, Flores raras, O menino e o mundo, O lobo atrás da porta e Por trás do céu, atualmente em cartaz no Brasil.

Batatolandia: O Festival em si é um evento. Na abertura você faz uma noite com música ao vivo, havia um stand vendendo comida brasileira, caipirinha(!), além do próprio bar do cinema…

Ricardo Eche: Quando tive a iniciativa de produzir o Festival, descobri essa sala de cinema na Einsteinstrasse – o Kim Kino – que é um local super fofo, aconchegante e oferece às pessoas a possibilidade de sentar, comer uma comida brasileira, escutar música… Eu achei sensacional a ideia de unir várias coisas! Normalmente eu faço a abertura para convidados. A música fica por conta de artistas cujo trabalho eu já conheço, são parceiros. É um momento de confraternização também e sempre lota, por isso em outubro faremos duas sessões. A atração musical ainda é surpresa... posso dizer que tem a ver com o filme da Elis. Aguardem!

Batatolandia: Caso algum cineasta tenha interesse em exibir seu filme no Festival, como deve fazer? Existe algum critério a ser preenchido? Filmes amadores, estrangeiros… o que não entraria?

Ricardo Eche: Claro! Eu ficaria super feliz se eles entrassem em contato. Na verdade sou eu quem tem de ir atrás dos filmes no momento. Já aconteceu de exibirmos um documentário, fruto do contato da equipe conosco. Como não conseguimos encaixá-lo na temática do festival, colocamos em outro evento nosso. Mais recentemente apresentamos o curta-metragem da Carmem Lopes, “Não Precisa de Troco” (Festival de Cannes 2017), em um evento exclusivo – cinema com jantar. Deu certo, foi muito legal. Seria muito mais fácil se diretores e produtores que tivessem interesse em exibir seus filmes entrassem em contato. Acho que precisamos divulgar mais nosso Festival para que a informação chegue.

Batatolandia: Vamos falar um pouco sobre o seu filme. Sua decisão de colocar-se como protagonista de uma história que mistura à ficção coisas bem reais da sua vida. O enredo é forte e muito emocionante. De onde veio a ideia?

Ricardo Eche: Começou através do Geraldo Müller, nós já fizemos várias coisas juntos – vídeos institucionais, infantis, documentário e curtas. Ele teve a ideia, após concluir seu curso na Deutsch Pop Akademie, de fazer um filme que falasse sobre Espiritismo, perdas, relação entre mãe e filho. Com essa introdução, eu criei o roteiro. Eu trabalho muito com som e inicialmente era para ser um curta, mas ao escolher a trilha sonora tinham canções que não podiam deixar de estar no filme e então ele cresceu. As músicas, praticamente inéditas, de Andrea Rincon e Erhard Ufermann tiveram papel fundamental na construção porque enquanto escrevia as cenas, as melodias pareciam falar exatamente do tema. Tem também o Vando Oliveira, que muito gentilmente cedeu a canção do final do filme feita para mãe dele, a qual ele havia acabado de perder.

Lembrancas do futuro
Batatolandia: E como foi trabalhar com sua mãe? Ela não é atriz. Foi fácil convencê-la?

Ricardo Eche: (Risos) Logo no início do processo de criação fui para o Brasil. Eu tinha cenas da minha infância e de momentos em família gravadas pelo meu pai em uma camera Super 8, nos anos 70. Minha mãe muito bonita, eu ainda criança… e me veio a inspiração. Ao invés de procurar pessoas para representar mãe e filho nas duas idades, eu poderia aproveitar as imagens que já tinha e usar minha mãe para dar um toque real ao filme. Houve uma preocupação em fazer diálogos simples e – dos atores – em não atuar demais justamente para não evidenciar a falta de experiência. Aliás, boa parte do elenco também é amadora, uma tendência comum na atualidade. Mas, acho que ficou muito bom e ela gostou tanto que agora está fazendo até aulas de teatro.

Batatolandia: E quanto ao seu projeto para crianças. Me parece ser um conteúdo que pode ser utilizado tanto em casa, quanto para uso institucional. O que ele representa exatamente? Como surgiu a ideia?

Ricardo Eche: Eu gosto muito de trabalhar com crianças. Meu próximo projeto é uma peça infantil, a qual também já comecei a produzir. Anteriormente, havia feito uma montagem para a Escola Europeia em Munique. O projeto “Que Legal!” surgiu depois que, de férias, passeando por São Paulo, encontrei os bonecos artesanais. Me apaixonei por eles e na hora pensei em fazer uma peça com bonecos. Quando cheguei aqui, o pessoal da Latizón TV tinha o projeto no site deles de montar um curso para ensinar português, me convidaram para fazer essa parceria e juntos produzimos 15 capítulos. Porém, a forma deles era bastante limitada porque não podíamos usar música, nem era permitido divulgar o projeto na internet e era apenas voltado para o público alemão (legendas e tudo). Decidi então fazer um novo programa, diferente, com legendas em português para que pudesse também ser usado para fins pedagógicos em todo o mundo, não ficasse restrito aos países de língua alemã e daí surgiu o “Que Legal!”, usando músicas criadas por nós mesmos ou aproveitando as que que estão disponibilizadas na rede gratuitamente. Conseguimos o apoio do Ministério das Relações Exteriores, que financiou o projeto de 2012 até 2015, quando infelizmente tivemos a verba cortada. Tentamos continuar a produzir, mas tornou-se inviável. Também faltou ajuda por parte do Ministério na divulgação do projeto entre os demais Consulados Brasileiros. Certamente teria feito a diferença no alcance do público.

Batatolandia: Parabéns pelo seu trabalho e pela persistência em levar à frente a cultura brasileira na Alemanha, através dos seus eventos e trabalhos.

Ricardo Eche: Obrigado! Tem muita gente que mora aqui e ainda pensa que cultura brasileira é só música e restaurante, mas não é. Tem cinema, tem teatro. Nós estamos aqui com o Teatro Brasileiro em Munique há 20 anos e em outubro acontece mais uma edição do nosso Festival de Cinema, venham nos visitar! Agradeço a divulgação e a entrevista.

Contato

Telefone: +49 (0) 89 5231 5239

Site: www.ricardo-eche.com

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Natália Lima
Natália Lima
Autor
Sou brasileira, mãe, mulher, advogada e inquieta. Moro em Munique há três anos e venho me conhecendo cada vez mais desde então. Adoro conversar, ouvir, trocar, acolher, ser acolhida... e talvez esteja chegando perto de descobrir algo que ainda não sei o que é.

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