Controlando os Heizkosten : Como transformar calor em ouro
Viver na Alemanha

Controlando os Heizkosten : Como transformar calor em ouro

Celso Celso Fernandes
27 de dezembro de 2017
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É fato: o inverno chegou. Apesar das temperaturas estarem mais amenas do que o esperado, em toda a Alemanha chaminés e fornalhas já estão trabalhando a todo vapor. Nós Südländers, não acostumados com o frio, logo encontramos no aquecedor um amigo ideal. Esta amizade, porém, amarga na primavera seguinte ao recebermos a conta dos custos de aquecimento (Heizkosten). Quem pensa que a solução está em não usar o aquecedor,  logo estará dividindo o quarto com mofos e fungos. 

Manter o ambiente saudável e aconchegante durante o inverno e ao mesmo tempo economizar ao máximo é praticamente uma ciência. Neste post, iremos explorar a física dos líquidos, a dinâmica do calor e o fluxo dos ares. Então sorria, após este aprendizado, você deixará de ser apenas mais um Ausländerzinho ignorante nas artes de aquecimento. Em breve, você não apenas colocará seus colegas alemães no chinelo em assuntos Heizung, como também passará a ser um verdadeiro alquimista do aquecedor capaz de transformar até calor em dinheiro. Então pegue a sua vareta mágica e venha comigo explorar o maravilhoso mundo da física!

O frio, a umidade e o fungo

Numa noite um adulto libera cerca de 1 litro de água ao respirar e transpirar. Numa casa com 3 a 4 pessoas esta quantidade de água liberada chega a 15 litros por dia!

Para garantir um ambiente com relativo conforto na Alemanha, é preciso fazer uso de aquecimento durante aproximadamente dois terços do ano. O aquecimento é proveniente de aquecedores centrais, aquecedores de andar ou até mesmo fornalhas individuais em cada cômodo.

Durante os meses de inverno observa-se, em maior quantidade, manchas de umidade na superfície de paredes com contato externo ou atrás de grandes móveis. Com o passar do tempo, estas manchas assumem uma pigmentação esverdeada ou negra e transformam-se rapidamente em fungos. Em estágio avançado, os fungos se espalham pela parede, estragando o embolço e liberando um cheiro acre que é prejudicial a saúde. 

Este desenvolvimento prejudica não apenas o seu bem-estar, mas também é capaz de causar danos estruturais severos, como a redução do isolamento térmico das paredes. 

Diferente do que muitos imaginam, na maioria das vezes a umidade nas paredes vem de dentro da moradia e não de fora. É comum o aparecimento de mofos especialmente nos quartos de casal, pois durante a noite um adulto libera cerca de 1 litro de umidade ao respirar. Numa casa com 3 a 4 pessoas esta quantidade de umidade liberada chega a 15 litros por dia! Outras atividades como banho, lavar roupas e cozinhar também enriquecem a umidade do ar.

O casamento químico entre o ar e a água

O ar tem a propriedade de combinar-se com a água. Este casamento químico é quase sempre invisível, porém as vezes faz-se notar em forma de vapor, nevoeiro e nuvens. Esta revelação não depende apenas da massa absoluta de água no ar (medida em grama por metro cúbico), mas também da temperatura e da pressão do mesmo. Em geral, quanto mais quente o ar, mais água ele é capaz de absorver (umidade relativa). Se a temperatura de uma massa de ar úmido cai repentinamente e atinge o ponto de saturação, uma parte desta umidade condensa (torna-se líquida e visível como na superfície de uma garrafa de cerveja). 

Em um cômodo, esta condensação acontece primeiro nas partes da parede com menor temperatura: cantos da parede com contato externo, cantos no teto com contato externo e as zonas em volta das janelas. A condensação acontece também em zonas com pouca movimentação de ar, como por exemplo paredes atrás de grandes móveis. 

Ou seja, a condensação irá sempre acontecer quando a umidade do ar for grande demais em relação a uma determinada temperatura; ou quando a temperatura for baixa demais em relação a uma determinada umidade. Em vista disso, é necessário evitar que as paredes internas atinjam temperaturas menores que 15 graus Celsius. O ideal é que as paredes internas permaneçam a uma temperatura constante de 18 graus Celsius. 

Compare: 1 metro cúbico de ar a 10 C e 35% de umidade relativa absorve apenas 3,3 gramas de água. Já o mesmo ar a 20 C e 65% de umidade relativa pode absorver 12,6 gramas de água.

O calor

No passado um lar possuía muito mais artigos capazes de absorver a umidade, como algodão ou madeira

É comum alguns alemães reclamarem que no passado não tinham tanto problema de mofo em casa. Isto tem fundamento, pois no passado um lar possuía muito mais artigos capazes de absorver a umidade, como algodão ou madeira. Outro fator que explica este fenômeno, é que no passado os custos de energia eram bem mais baixos e portanto fazia-se mais uso do aquecimento e havia menos pudor em abrir janelas para arejar a casa.  Além do mais, as janelas eram de uma única camada de vidro, o que permitia uma  troca constante de ar e de calor. Na lateral interna, o vidro suava e escorria até uma pequena calha que expulsava a água condensada para fora. Em dias muitos frios, a água expulsa formava estruturas de gelos bizarras semelhantes a flores do lado de fora. 

Janela na Alemanha
Condensação na parte mais fria do vidro. Provavelmente indicando vazamento de ar externo.

Nos dias atuais, as janelas possuem uma dupla camada de vidro com um vácuo do meio. Esta técnica é excelente para o isolamento e por isso não permite os efeitos de troca constante de ar e calor que existiam antes. Isto significa, que a umidade condensa primeiro nas paredes e não mais nos vidros das janelas. Para piorar a situação, os custos de energia subiram consideravelmente, o que leva muitas pessoas a acreditarem que para economizar dinheiro basta nunca abrir as janelas e abrir mão do aquecedor. Este é um pensamento extremamente equivocado, pois com a falta de aquecimento a umidade condensa na superfície interna da parede. Com o tempo as paredes vão ficando encharcadas e quando este excesso de umidade atinge a superfície externa, cria-se uma ponte que passa a conduzir o calor para fora de forma acelerada.  O resultado é baixo conforto dentro de casa e o estrago gradativo da estrutura do edifício.

A importância da ventilação

A forma mais simples e eficiente de ventilar um cômodo é abrindo as janelas totalmente durante um período de aproximadamente 10 minutos

Pode parecer contraditório, mas manter as janelas abertas por um curto período permitindo, assim, a entrada de ar seco externo é tão importante quanto manter as janelas fechadas para conservar energia. 

Nos parágrafos acima, vimos que a respiração e a transpiração dos habitantes da casa, assim como suas atividades diárias contribuem para a liberação de dezenas de litros de água no ar.  Este ar carregado de umidade deve ser expulso da casa e substituído por um ar mais seco e capaz de absorver ainda mais umidade. Este processo de “renovar” o ar é conhecido como ventilação e também pode ser encarado como um processo higiênico.

A forma mais simples e eficiente de ventilar um cômodo é abrindo as janelas totalmente durante um período de aproximadamente 10 minutos. Durante este processo, o ar “velho” e úmido escapa pela janela dando lugar ao ar fresco e menos úmido que vem de fora. 

Quarto na Alemanha
Quartos com muitos móveis devem ser ventilados várias vezes por dia.

É aconselhado criar um corredor de ar abrindo janelas em paredes opostas arejando, assim, toda a casa ou apartamento. Caso isso não seja possível (ou desejado), feche a porta do quarto a ser arejado para evitar que ar quente de cômodos vizinhos condense nas paredes do quarto mais frio. 

Durante o processo de ventilação, os radiadores do aquecedor deverão permanecer desligados, salvo cômodos com aquecimento de chão (Fußbodenheizung). Estes poderão permanecer em funcionamento durante o arejamento. 

A fórmula do ouro

Agora que você já conhece o relacionamento entre água, ar e calor e como eles influenciam o seu ambiente, vamos direto as dicas de como transformar todo esse conhecimento em ouro! Quem seguir os seguintes conselhos atentamente, irá definitivamente observar uma economia em suas contas de energia.  

  • Aqueça todos os cômodos de forma contínua e suficiente. Aqueça também os cômodos menos visitados e onde se deseja uma temperatura menor.
  • Facilite a circulação do ar.  Mantenha uma distância de aproximadamente 5 cm a 10 cm entre móveis e a parede.
  • Não bloqueie o radiador. Evite cobrir o radiador do aquecedor com cortinas, móveis e outros objetos que possas obstruir a radiação de calor.
  • Mantenha a porta de cômodos mais frios sempre fechada. Quando o ar de um cômodo mais quente flui para um mais frio, poderá ocorrer a condensação na superfície das paredes do cômodo mais frio.
  • Ventile regularmente os cômodos com ar externo. Faça-o de forma intensiva e repentina. Cada seção de arejamento deve durar por volta de 10 minutos e deve ser repetida várias vezes ao dia.
  • Evite deixar a janela “caída” durante o processo de reaquecimento. Prefira o arejamento forte e repentino.
  • Desligue o aquecedor ao iniciar o processo de ventilação.
  • Ventile imediatamente após atividades que liberam grande quantidades de vapor, como por exemplo cozinhar ou tomar banho. Se possível mantenha a porta destes cômodos fechadas.
  • Ventile os quartos antes de dormir e imediatamente depois de acordar. Isto irá ajudar a preparar o ar para receber a umidade da transpiração durante o sono e dissipará o ar carregado de umidade na manhã seguinte.
  • Mantenha os aquecedores ligados em modo bem baixo mesmo quando estiver fora de casa. Um aquecimento baixo e constante durante horas é mais eficiente do que aquecer drástica e rapidamente ao chegar em casa. 
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Celso Fernandes
Autor
Engenheiro, empreendedor e programador de fim de semana.  Natural de Petrópolis, RJ. Trinta e poucos anos de idade e há dez anos vivendo na Alemanha. Escreveu o primeiro post no Batatolandia em 2008 e desde então não parou mais. Adora responder perguntas 

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